
A atual e tão comum compra de votos é uma forma de criar dependência. De um controle absoluto da época da República Velha, representado pelo “voto de cabresto”, quando se obrigava a votar pelo uso da coação física, vive-se, atualmente, outra maneira de gerar submissão, pela opressão econômica: a compra de votos, que poderia muito bem ser entendida como compra de consciências. A Doutrina Espírita, pelo estímulo que promove à liberdade de conduta, contribui nesta reflexão como um importante recurso para gerar autonomia responsável nos indivíduos e resgatar a dignidade humana.
Percebemos, atualmente, grande movimentação de idéias em torno do tema compra de votos, inclusive com atuação intensiva dos órgãos jurisdicionais no combate a tal prática. A restrição de shows artísticos em comícios e a proibição da distribuição de brindes, como camisetas, foram importantes conquistas sociais. No entanto, temos que tomar cuidado com os enganos que podem ser cometidos na tentativa de libertar os eleitores da forte influência monetária de alguns candidatos ou grupos políticos.
Admitir receber dinheiro de um candidato em troca do voto já está começando a se tornar vergonhoso, ao ponto do corrompido não se sentir muito à vontade para declarar que se vendeu. Porém, muitos admitem que receberam o dinheiro e não votaram naqueles que lhes ofereciam suborno, como uma forma de se vingar de quem tentava manipulá-lo.
Essa conduta, muitas vezes anunciada como uma grande vantagem, não representa um avanço. Pelo contrário, demonstra malícia e falsidade, pois ao receber o dinheiro, incorre o indivíduo em, pelo menos, dois delitos morais, passíveis de serem alcançados pela lei humana: o primeiro é o de realizar, mesmo que tacitamente, um acordo inescrupuloso, o segundo é o de se apossar de um recurso adquirido de maneira injusta.
O que se espera do cristão esclarecido pela luz espírita é que não receba nenhum recurso de origem execrável, pois é dinheiro “sujo”, desviado, geralmente, de alguma atividade importante para a coletividade e que está sendo usado para propósitos nefastos. A decisão quanto ao voto deve ser um ato espontâneo e consciente dos cidadãos de bem e esclarecidos, que já perceberam que os seus atos geram consequências para os demais indivíduos. Desta forma, muito mais do que se vangloriar de ter recebido dinheiro sem ter votado, poderemos ter a íntima satisfação de nem ter sujado as mãos ao receber recursos indignos.