
A passagem evangélica do “não julgueis” é uma importante advertência quanto à forma como olhamos o comportamento das outras pessoas. A recomendação de Jesus não é de que fechemos os olhos para os erros praticados pelos semelhantes, porém, esclarece que a força de nossas censuras no combate ao mal está ligada à capacidade de não repetirmos a conduta que condenamos. Diante disso, pelo bem do interesse coletivo, podemos afastar dos cargos públicos aqueles que julgarmos sem condições de nos representar.
Escolher um representante político é fazer um julgamento. É recomendável ponderarmos os prós e contras, a postura perante a família, a experiência política, as propostas de ação, a vida pregressa e, inclusive, a “ficha criminal”, para saber se é limpa ou suja e, só então, escolher o que considerarmos melhor. A questão que precisa ser respondida é: estamos preparados para fazer este julgamento?
Nós somos ágeis em condenar aquelas práticas escandalosas dos políticos: desvio de verbas, favorecimentos, fraude em licitações, compra de votos, abuso do poder e muito mais. No entanto, em nosso dia-a-dia cometemos desvios que também são nocivos, intitulados eufemisticamente de “jeitinho brasileiro”: estacionar em fila dupla ou em vaga de cadeirante, passar uma “propina”, furar fila, sonegar tributo, ficar com o troco a mais, entre tantos outros. Estes comportamentos reduzem nossa força para mudar a corrupta realidade política brasileira.
Alguém pode pensar que não podemos comparar o gesto de um cidadão comum com a conduta desleal de um político. Claro que precisamos respeitar as proporções, pois enquanto um prejudica poucos, o outro promove sua ação devastadora em uma dimensão bem maior. Porém, o móvel de ambos é o mesmo: o ato de pensar em si sem se preocupar com os demais, o egoísmo. É o cidadão comum do “jeitinho brasileiro” que quer julgar os atos dos políticos? É o cidadão comum que diz: “se fosse eu também roubaria um pouco”, que quer condenar os políticos?
Pensando no melhor para a comunidade onde a providência divina nos inseriu, nós podemos e devemos fazer uma boa escolha, um bom julgamento. É necessário não admitir que os “ficha suja” permaneçam em funções que interferem na vida de todos e que afetam, especialmente, a população mais vulnerável. Para isto acontecer, precisamos fazer nossa reforma moral e expurgarmos de nosso comportamento, as práticas danosas inspiradas pelo egoísmo. Quanto mais rápida for a nossa mudança, mais rapidamente colheremos os bons resultados, inclusive o de sabermos julgar quem está em condições de assumir funções tão importantes para nossa população.
Em favor dos chamados “ficha suja”, ainda nos resta o dever da piedade, rogando à bondade divina a força para que se arrependam do mal praticado e, certamente, a justiça universal dará novas oportunidades, seja nesta ou em outra existência, para que reparem todo o prejuízo que causaram.