domingo, 23 de maio de 2010

SABER JULGAR



A passagem evangélica do “não julgueis” é uma importante advertência quanto à forma como olhamos o comportamento das outras pessoas. A recomendação de Jesus não é de que fechemos os olhos para os erros praticados pelos semelhantes, porém, esclarece que a força de nossas censuras no combate ao mal está ligada à capacidade de não repetirmos a conduta que condenamos. Diante disso, pelo bem do interesse coletivo, podemos afastar dos cargos públicos aqueles que julgarmos sem condições de nos representar.

Escolher um representante político é fazer um julgamento. É recomendável ponderarmos os prós e contras, a postura perante a família, a experiência política, as propostas de ação, a vida pregressa e, inclusive, a “ficha criminal”, para saber se é limpa ou suja e, só então, escolher o que considerarmos melhor. A questão que precisa ser respondida é: estamos preparados para fazer este julgamento?

Nós somos ágeis em condenar aquelas práticas escandalosas dos políticos: desvio de verbas, favorecimentos, fraude em licitações, compra de votos, abuso do poder e muito mais. No entanto, em nosso dia-a-dia cometemos desvios que também são nocivos, intitulados eufemisticamente de “jeitinho brasileiro”: estacionar em fila dupla ou em vaga de cadeirante, passar uma “propina”, furar fila, sonegar tributo, ficar com o troco a mais, entre tantos outros. Estes comportamentos reduzem nossa força para mudar a corrupta realidade política brasileira.

Alguém pode pensar que não podemos comparar o gesto de um cidadão comum com a conduta desleal de um político. Claro que precisamos respeitar as proporções, pois enquanto um prejudica poucos, o outro promove sua ação devastadora em uma dimensão bem maior. Porém, o móvel de ambos é o mesmo: o ato de pensar em si sem se preocupar com os demais, o egoísmo. É o cidadão comum do “jeitinho brasileiro” que quer julgar os atos dos políticos? É o cidadão comum que diz: “se fosse eu também roubaria um pouco”, que quer condenar os políticos?

Pensando no melhor para a comunidade onde a providência divina nos inseriu, nós podemos e devemos fazer uma boa escolha, um bom julgamento. É necessário não admitir que os “ficha suja” permaneçam em funções que interferem na vida de todos e que afetam, especialmente, a população mais vulnerável. Para isto acontecer, precisamos fazer nossa reforma moral e expurgarmos de nosso comportamento, as práticas danosas inspiradas pelo egoísmo. Quanto mais rápida for a nossa mudança, mais rapidamente colheremos os bons resultados, inclusive o de sabermos julgar quem está em condições de assumir funções tão importantes para nossa população.

Em favor dos chamados “ficha suja”, ainda nos resta o dever da piedade, rogando à bondade divina a força para que se arrependam do mal praticado e, certamente, a justiça universal dará novas oportunidades, seja nesta ou em outra existência, para que reparem todo o prejuízo que causaram.

domingo, 16 de maio de 2010

OS ESPÍRITAS EM ANO DE COPA E ELEIÇÃO



No dia da publicação deste artigo faltam 26 dias para a Copa do Mundo de Futebol da África do Sul. Neste momento, a maior parte da nossa atenção já está voltada para os “gladiadores” de uniforme amarelo, sobre os quais são depositadas tantas esperanças.

É impressionante ver a mobilização em torno da Copa do Mundo. Quase todas as propagandas de televisão remetem ao tema. Nas discussões entre amigos, colegas de trabalho, estudantes, nos ponto de ônibus, nas recepções de consultórios, nos noticiários, esse é o assunto predominante. Claro que entre nós, espíritas, o interesse não é menor.

Como é bom ver o Brasil se destacando no cenário mundial, sendo referência. Como é bom quando o time brasileiro chega à vitória e a nossa auto-estima alcança os cumes da satisfação, pelo sentimento de nacionalidade. Claro que nós, espíritas brasileiros, também vibramos, torcemos e nos emocionamos como quase todo compatriota e esperamos o hexacampeonato para o Brasil. Já dá para imaginar as ruas coloridas e decoradas, as carreatas e as bandeiras expressando o nosso amor pela pátria amada.

No dia da publicação deste artigo faltam 141 dias para as Eleições 2010. Será a maior eleição informatizada do mundo, com cerca de 130 milhões de eleitores, que escolherão 27 governadores, 54 senadores, 513 deputados federais, 1059 deputados estaduais e 1 presidente da república. Entretanto, apesar de ser um acontecimento de grande importância para a organização social, que irá interferir bastante nas condições de vida da população, os brasileiros não se preocupam tanto com o tema, se comparado à Copa do Mundo, inclusive nós, espíritas.

Como será bom, quando estivermos comprometidos com o nosso sentimento de amor pela nação que nos acolhe e encararmos as eleições com mais seriedade e responsabilidade, para que possamos alcançar vitórias muito mais expressivas que um campeonato de futebol: conquistas na educação, na saúde, na preservação ambiental, no lazer, no apoio à população carente e em tantos outros desafios que precisamos enfrentar.

Nesta tarefa, o Espiritismo pode nos dá uma grande ajuda na formação da seleção que fará a nossa sociedade melhor. Para nos defender dos ataques do mal, escalamos a fé em Deus. Na zaga colocamos o perdão e a mansuetude. Nas laterais selecionamos o bom senso e a indulgência. No meio-de-campo é imprescindível a instrução, a razão, além da paciência e a esperança no futuro. Para o ataque não podem faltar os maiores artilheiros: a humildade e o amor.

Com esta seleção, que tem à frente da comissão técnica o professor Jesus Cristo, teremos muitas vitórias a comemorar, em especial contra os adversários mais difíceis: o materialismo, o individualismo e a negligência.

domingo, 9 de maio de 2010

INFLUÊNCIA POLÍTICA ESPÍRITA



Muita gente ainda acha estranho a relação que defendemos entre Espiritismo e política, considerando incompatíveis os dois assuntos, seja por descrença quanto à prática político-partidária, seja por temer uma manipulação interesseira, promovida por supostos “líderes” espíritas, no processo eleitoral, entre outros motivos.

No entanto, desejamos demonstrar que o modo de pensar espírita, que admite a reencarnação, a vida espiritual e sua relação com o mundo corpóreo, a lei de causa e efeito e a supremacia da moral cristã, contribui para disciplinar e orientar a conduta humana nos mais variados aspectos da vida, inclusive no relacionamento com o Estado e as instituições públicas.

Dessa forma, a prática dos adeptos do Espiritismo, como um movimento social livre e legítimo, pode interferir na conduta dos cidadãos e na dos nossos representantes políticos. O mais expressivo exemplo do que está sendo mencionado aqui é a Campanha Nacional Brasil Sem Aborto, da qual o Movimento Espírita participa aberta e intensamente.

Partindo de premissas filosófico-morais, como a da pré-existência dos espíritos, do planejamento reencarnatório e da solidariedade universal com vistas à evolução dos seres, os espíritas se posicionam de modo firme na recusa ao aborto, com exceção no caso de perigo de vida para a mãe*. Porém, o movimento espírita, juntamente com outras correntes de pensamento, não se limita a rejeitar a legalização do aborto, mas atua fortemente junto aos órgãos públicos e os representantes políticos para que este posicionamento seja um compromisso estatal.

Ao participar de abaixo-assinados, passeatas, manifestações públicas, debates em órgãos legislativos, audiências com representantes políticos, entre outras ações, os membros do Movimento Espírita agem como grupo de pressão política, com possibilidades de influir na elaboração de leis e de programas administrativos.

Dessa maneira, o Movimento Espírita, através de entidades como a Federação Espírita Brasileira e a Associação Médico Espírita, se contrapõe ao pensamento de vários grupos que apóiam o aborto. Esta oposição se dá, apenas, no campo das idéias, como fazia Kardec, de forma pacífica e não passiva. O grupo que apresentar os melhores argumentos, que possuir maior alcance social e, inclusive, trabalhar pela eleição dos representantes de suas idéias, obterá, junto ao Estado, os resultados almejados.

Fica claro, assim, que o Espiritismo pode interferir positivamente nas escolhas políticas dos espíritas, que devem ser coerentes com a doutrina que professam. A campanha pela rejeição ao aborto é uma etapa. Muito há que ser trabalhado, em parceria com outros movimentos sociais, filosóficos, religiosos, científicos, em defesa da vida, do meio-ambiente, da tolerância entre as culturas, da melhoria da educação e de tudo o mais que puder tornar o nosso mundo e o nosso país um lugar melhor.



OBS.: Para aprofundar este tema, pode ser consultada a obra ESPIRITISMO E FORMAÇÃO POLÍTICA, de Paulo R. Santos. Agradeço ao Raul Ventura por ter me presenteado com o texto.

* Questão 359 de O Livro dos Espíritos

sábado, 1 de maio de 2010

JESUS E A QUESTÃO DOS PRIVILÉGIOS



Quem conhece e convive no ambiente político sabe que o pensamento mais comum no meio ainda é o de buscar “se dar bem”, ou seja, conseguir todos os tipos de vantagens e privilégios para si, seus familiares, amigos e aliados, indiferentes ao interesse coletivo. A partir desta constatação podemos perceber o quão distante ainda estamos de aplicar os conceitos cristãos na sua plenitude, que, como decorrência da lei de justiça, amor e caridade, rejeitam qualquer tipo de privilégio.

Jesus deixou claro que toda posição de destaque, longe de constituir um privilégio, é uma grande responsabilidade, para que seja alcançado o bem comum, como vemos em Mt, XX,26: “quem quiser ser o maior, seja servidor”. Aquela lição foi ministrada quando a mãe dos apóstolos João e Tiago pediu privilégios, no Reino dos Céus, para seus filhos. Diante daquele pedido, Jesus esclareceu que a posição de cada um é resultado do mérito pessoal, evidenciado na capacidade de se doar ao semelhante, sacrificando-se, de algum modo, em proveito do próximo.

Mas, talvez a lição mais emblemática do Mestre, que mostra a incompatibilidade de privilégios com a Lei de Deus, está na passagem em que Jesus falava ao povo e os seus familiares vieram ao seu encontro, quando alguém disse: tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar-te, ao que ele responde: quem é minha mãe e meus irmãos? E complementa: todos os que fazem a vontade do Pai celeste são minha mãe e meus irmãos (Mt. XII, 46 a 49).

O acesso ao Mestre não dependia de laços consangüíneos, mas de afinidade com os ideais do Evangelho. Não importava tanto a ligação genética, mas a ligação moral era e é fundamental. A compreensão daquela lição pode ser entendida,ainda, como um manifesto contra privilégios, como o nepotismo e a concessão de vantagens indevidas a grupos ou pessoas. O Mestre nos mostra que não devemos cuidar, apenas, de nossos familiares e amigos, mas de toda a família humana, no limite do nosso alcance.

Isso não quer dizer que as pessoas da família de Jesus não tinham compromisso com os seus ideais, pois, como sabemos, Maria, a sua mãe, expressava a ternura e a meiguice ensinadas pelo seu filho. O fato de ser familiar não lhe trouxe privilégios injustos. O destaque de Maria na história terrena não está no fato de ser parente de Jesus, mas no seu compromisso pessoal de vivenciar a Lei de Deus.

Diante disso, podemos conceber que um parente ou um amigo de um político tenham condições de assumir uma posição de destaque pela sua capacidade, responsabilidade, competência e interesse pelo bem comum. No entanto, como esta conduta é algo bastante raro, bem fez a justiça brasileira ao proibir o nepotismo, para tentar evitar vantagens indevidas e concentração de poder excessiva, fato incompatível com a democracia e com a lei de amor.



ATENÇÃO, ATENÇÃO: O prazo para alistamento ou transferência de título de eleitor vai até quarta-feira (05 de maio). Cuidado para não perder a oportunidade de participar da maior eleição da história do país e, dessa forma, contribuir para tornar o Brasil um lugar melhor.

domingo, 25 de abril de 2010

DAI A CÉSAR SERVINDO A DEUS



A máxima do “Dai a César o que é de César”, é um convite ao cumprimento zeloso de nossos deveres, incluindo as obrigações que temos perante as autoridades e a sociedade.

O verbo “dar” nos conduz à reflexão de Francisco de Assis: “é dando que se recebe”, indicando-nos a certeza da lei de causa e efeito, a qual estabelece que enfrentamos as consequências de nossa conduta, ou seja, colhemos o que plantamos. Mas o que estamos dando a César (instituições e autoridades constituídas)? Em outras palavras, de que modo agimos em relação aos órgãos estatais e pessoas que dirigem nossa sociedade? E também aqui, a colheita é resultado do que se planta.

Quando o que temos para dar a César é a fraude, como ocorre com a sonegação de impostos, comprometemos o funcionamento do Estado e a sua capacidade de suprir as necessidades sociais. Agindo assim, ainda “autorizamos” os agentes políticos a buscarem a vantagem indevida. Outra consequência é a atitude anti-caridosa de sobrecarregar aqueles que fazem sua parte, submetendo-os ao peso de sustentar a estrutura governamental.

Quando damos a indiferença a César, sem fiscalizarmos e acompanharmos a conduta dos agentes públicos, sem emitirmos opiniões ou oferecermos propostas, recebemos, pela lei do retorno, um Estado desorganizado e ineficiente. Atualmente é muito fácil participarmos de grupos sociais que contribuam para a organização estatal: sindicatos, associações de moradores, entidades filantrópicas como o Centro Espírita, que podem fazer parte de congressos ou conselhos, propor audiências públicas, fazer abaixo-assinado, realizar manifestações ou qualquer outra forma de não ser omisso.

Quando damos a César a crítica revoltada e infrutífera, criamos atritos e desentendimentos. Dessa forma, colaboramos para o distanciamento entre irmãos e a desarmonia social. Indignação sadia e desejo profundo de mudança podem ser vividos com diálogos sensatos e responsáveis, porém, a força capaz de transformações mais consistentes decorre de uma conduta digna, a exemplo do que fizeram Ghandi, Martin Luther King e o maior de todos os mestres: Jesus.

Alguns de nós oferecemos a César a ambição controladora, o apego ao poder, o desejo por facilidades e privilégios, movidos pela ânsia de satisfazer os impulsos materiais e egoístas. O resultado é a insatisfação generalizada, a rivalidade doentia, a possibilidade de traição e a descrença quanto à conduta dos dirigentes.

A Doutrina Espírita nos clareia as mentes para que possamos dar a César a nossa participação consciente e responsável (a começar pela escolha de nossos representantes). Também somos instados a realizar a fiscalização firme dos agentes públicos, a oração piedosa em favor dos escolhidos para ocuparem cargos de decisão e a cumprirmos fielmente os nossos compromissos cotidianos frente às organizações públicas. Dessa forma, será inevitável uma sociedade melhor para nós, pois quando agimos em favor de todos, estamos servindo a Deus.

domingo, 18 de abril de 2010

PARTIDARISMO NO CENTRO ESPÍRITA: SUTILEZAS


Em um grupo espírita sério, a prática político-partidária ostensiva é uma grande aberração. É difícil até imaginar que as cenas a seguir possam ocorrer: o dirigente conduzindo um candidato a tiracolo, apresentando aos membros do grupo como seu escolhido e pedindo voto; permitir que seja colocado cartaz de campanha no mural do centro espírita; oferecer oportunidade para que o candidato se pronuncie na tribuna e peça apoio de todos; aceitar que o político divulgue que é o candidato do centro espírita.

Tais práticas absurdas seriam rechaçadas pela maioria dos espíritas, pois as formas como ocorrem as disputas político-partidárias destoam dos ideais espíritas de solidariedade, tolerância e da busca pela harmonia entre os indivíduos. No entanto, o partidarismo pode estar presente nas casas espíritas de forma sutil, a comprometer o seu funcionamento ou a sua credibilidade. É importante ficarmos atentos a essas sutilezas.

1. APOIO PARA AS ATIVIDADES DO CENTRO EM TROCA DE PROPAGANDA – É muito comum o Centro Espírita procurar a comunidade para apoiar suas atividades (encontros, seminários, feiras...) e quando consegue a contribuição de empresas, por exemplo, retribui com a propaganda em panfletos, camisetas e cartazes do evento. Pode ocorrer que um político ofereça apoio em troca da mesma divulgação, o que evidenciaria uma ligação entre o candidato e a instituição espírita. O mais sensato é não procurar os políticos e se estes oferecerem alguma contribuição, esclarecê-los que somente poderiam aceitar se não fosse em troca de divulgação do seu nome.

2. PALESTRANTES CANDIDATOS – A partir do momento que confirma sua candidatura a um cargo eletivo, o mais sensato é que o próprio palestrante abdique, durante a campanha, de usar a tribuna, mesmo que não aborde temas da política. Se não for por iniciativa pessoal, a direção deve cuidar em afastá-lo, para não gerar a vinculação de sua prática partidária com as atividades do centro.

3. “PANELIHAS” E GRUPOS ISOLADOS – Cuidar para que a formação de grupos não seja fundada em critérios políticos estranhos às propostas espíritas, pois esta prática cria dissensões e desagrega o conjunto, enfraquecendo as atividades da casa espírita, podendo provocar a sua própria dissolução, em virtude das intrigas internas que gera. Esta preocupação é maior nas casas espíritas de cidades pequenas, onde qualquer coisa vira disputa partidária.

4. ESPÍRITA CANDIDATO QUE AUMENTA SUA FREQUÊNCIA AO CENTRO – Após se candidatar, o parceiro de ideal frequenta mais intensamente a casa espírita, onde aparece mais sorridente, atuando em atividades que antes não participava e, ainda que não fale de política, demonstra mais cuidado com as pessoas. Esta preocupação pode indicar interesses obscuros disfarçados em atenção ao semelhante.

5. DIRIGENTES E MEMBROS DO GRUPO PEDINDO VOTO FORA DO CENTRO – Mesmo que fora da instituição, os membros das casas espíritas e seus dirigentes precisam tomar muito cuidado ao fazer campanha partidária, pois os seus pedidos de voto podem parecer uma troca de favores por um benefício recebido, contradizendo a máxima do "dai de graça".

Muitos cuidados devem ser tomados pelos centros espíritas para que a política partidária não gere atritos ou alguma forma de manipulação. Devemos agir com bom senso para não comprometer os nobres ideais espíritas com interesses passageiros e gananciosos.




Observação: sugiro a leitura do capítulo 10 do livro Conduta Espírita (André Luiz, através de Waldo Vieira, publicado pela FEB), com o título Nos Embates Políticos.

sábado, 10 de abril de 2010

OS DESAFIOS DO BOM POLÍTICO



Nem o Mestre Jesus aceitou a qualificação de bom, nos assegurando que só Deus é bom (Mt. 19,16). Como poderemos, então, fazer associação entre o adjetivo bom e a “indigna” figura do político?

Se não existem homens e mulheres puros na Terra, existem, pelo menos, homens e mulheres de bem, que são aqueles cumpridores dos seus deveres, amorosos e justos, que têm fé em Deus e no futuro, são tolerantes e humildes, agem moderadamente e preocupam-se com o bem comum, dentre outras qualidades.

Uma pessoa de bem, mesmo que raramente encontrada, pode ter interesse pela política? Deveria, pois a política estatal possibilita organizar e administrar as instituições públicas, sendo um instrumento importante para a condução ao bem-estar comum. No entanto, para uma pessoa de bem, a política pode ser muito mais difícil, surgindo a necessidade de enfrentar alguns desafios.

1.DESCONFIANÇA DA MAIORIA – Meu sogro costuma dizer que perde a confiança em uma pessoa no momento em que esta “entra” na política. Por melhor intencionado que seja o indivíduo, irá enfrentar olhares e gestos de descrença, pois a grande maioria tem a certeza de que todo político rouba, mesmo que não o faça nem deixe fazer. Aceitar ser fiscalizado e investigado constantemente é um sacrifício necessário para alcançar a confiança coletiva em uma função pública.

2.SINCERIDADE e COERÊNCIA – Os políticos tradicionais dizem o que as pessoas querem ouvir (gerar polêmicas não dá voto), enquanto um bom político deve falar o que as pessoas precisam ouvir, colocando-se como condutor de transformações, não só pelo que fala, mas, principalmente, através do seu próprio exemplo de comportamento. Observemos que os políticos menos sérios fogem dos debates, para que depois não sejam cobrados pelo que disseram.

3.INDULGÊNCIA E TOLERÂNCIA – O nosso mundo não é habitado por seres perfeitos. Frequentemente um político asqueroso e repulsivo irá se aproximar do bom político para acordos, pois também aqueles têm poder de negociação. Dentro das “regras do jogo” o bom político deve barganhar, sem, no entanto, aceitar ou permitir práticas inescrupulosas. Este deverá lembrar de Jesus junto aos publicanos (rejeitados pela maioria). Mesmo sentado à sua mesa, não compartilhava de suas idéias, pelo contrário, estimulava-lhes uma mudança de conduta, de modo respeitoso e amistoso. Tolerar e conviver com os infelizes interesseiros não quer dizer comungar com suas idéias e práticas. Se Jesus os aceitava em sua companhia, quem somos nós para não tratá-los como irmãos, mesmo que doentes e necessitados de esclarecimento espiritual?

4.DESAPEGO AO PODER – A capacidade de interferir, de determinar, de organizar a vida social, a exibição do nome e da imagem, o modo de tratamento diferenciado, a distinção social podem gerar um profundo apego ao poder que um cargo oferece. O orgulho e a vaidade têm que estar sob constante vigilância para que o interesse pessoal não suplante o interesse coletivo.

5.AUDÁCIA E HABILIDADE – Atuar com fé em Deus e no futuro e agir de modo determinado, sem prescindir do bom-senso. Ousar contribuir para mudar o que há de errado, envolver os demais com seus gestos e palavras, enfrentando os riscos da rejeição e impopularidade imediatos, mas que devam trazer bem-estar coletivo futuro. Tudo isso, no entanto, fica menos difícil quando há preparo e qualificação, além da experiência de vida ou profissional que dê segurança para o político agir em cada situação.

Esta não é a enumeração de todos os desafios do bom político, mas aqueles que se esforçarem em enfrentá-los poderão contribuir de maneira expressiva para a melhoria de nossa sociedade.

TALVEZ O PRINCIPAL DESAFIO DE UM BOM POLÍTICO SEJA O DE SUPERAR A IMAGEM RUIM QUE SE FEZ DO POLÍTICO EM GERAL, COMO PODEMOS VER NAS GRAVURAS ABAIXO.





sábado, 3 de abril de 2010

ESCÂNDALOS E ABUSOS: REGRESSO MORAL?



É preocupante ver a expressão de desânimo de pessoas de boa índole, trabalhadoras, cumpridoras de suas obrigações, cidadãos esclarecidos completamente sem esperanças diante de tantas notícias de escândalos, abusos e corrupção envolvendo os ocupantes de cargos eletivos. Essa preocupação se amplia quando, ao invés destas pessoas insatisfeitas agirem firmemente para a mudança da realidade, ficam apáticas, inertes e descrentes quanto à possibilidade de avanços e melhoria do ambiente político.

A causa de tamanho desânimo pode estar na forma como percebemos a realidade que nos cerca, muitas vezes baseada em critérios imediatistas e materialistas. Noutros casos percebemos os acontecimentos de forma muito limitada e imprecisa. Necessitamos ver as coisas de um ponto de vista que considere a nossa condição de seres criados por Deus para a integração (solidariedade) e eternidade.

A Doutrina Espírita nos explica que não há retrocesso moral (L.E.-118)*, mas por que parece que as coisas ficam piores com o passar do tempo? Porque passamos a compreender melhor o mal e que aquela realidade não é mais aceitável, fazendo, então, surgir o anseio de reformarmos nossas atitudes e instituições (L.E.-784)*. Observemos bem e veremos que os fatos que hoje repudiamos eram tolerados e aceitos em outros tempos pela nossa sociedade. A consciência da necessidade de mudar é o início do progresso.

Diante disso, apelamos aos homens e mulheres de boa vontade, que desejam ver o progresso social, que se inquietam com as injustiças, que aspiram ao bem comum para não desanimarem, não deixar enfraquecer a esperança. Lembremos que os maus somente dominam em nossa sociedade pela fraqueza dos bons, pois no dia em que estes quiserem, dominarão(L.E.-932)*.

Vamos unir os nossos esforços na fé em Deus, na superioridade do amor e na vivência dos ensinos morais de nosso Mestre Jesus, para nos mantermos atuantes e firmes na busca pelo progresso de nossa sociedade. Podemos debater os atos dos eleitos, acompanhar os acontecimentos da política, instruir a população, mas não podemos ficar desanimados. Nós temos um raio de influência no meio onde estamos inseridos e precisamos influir positivamente.

É claro que o nosso Brasil tem jeito e o nosso inconformismo quanto aos escândalos de corrupção e ineficiência são o início dos avanços que iremos alcançar, seja para nós, seja para as gerações seguintes (das quais também poderemos fazer parte).

*L.E. - Livro dos Espíritos e questão correspondente ao assunto abordado.

FRASES E VÍDEO PARA REFLEXÃO

Agradecemos aos nossos amigos que buscam contribuir com o trabalho do blog ESPIRITISMO E POLÍTICA, nos ofertando material para pesquisa, como o Raul Ventura e o José Francisco Marques. Este último, inclusive, nos mandou interessantes frases para nossa reflexão:

• O prazer dos grandes homens consiste em poder tornar os outros mais felizes. Pascal

• Pode-se enganar a muitos por algum tempo; pode-se mesmo enganar alguns por muito tempo; mas não se pode enganar a todos, todo o tempo.
Abrahan Lincoln

• Se tens a certeza da existência de Deus, e credes na sua misericórdia divina, por que te desalentas e te desesperas?
Décio Valente

• Se eu pudesse deixar algum presente a vocês, deixaria o acesso ao sentimento de amar a vida dos seres humanos.
Mahatma Gandhi


O VÍDEO A SEGUIR NÃO TEM UMA PRODUÇÃO MUITO BOA, MAS A MÚSICA NOS TRAZ ÓTIMAS REFLEXÕES. É DE UM ÁLBUM DA FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO ESPÍRITO SANTO CHAMADO ESTRELA RELUZENTE. O NOME DA MÚSICA É "BRASIL, A TERRA DA ESPERANÇA".

quarta-feira, 24 de março de 2010

OS JOVENS ESPÍRITAS E A POLÍTICA

QUE TAL CARREGAR O VÍDEO ABAIXO ENQUANTO VOCÊ LÊ O TEXTO?



Juventude e política são fenômenos que mantêm uma íntima relação. Como imaginar as revoluções, as manifestações, as reivindicações sociais frente às instituições de poder sem a irreverência, a empolgação, o vigor, as esperanças e até o inconformismo encontrados comumente nos jovens?
Se incluirmos as faixas etárias entre 16 e 34 anos de idade como jovens, iremos encontrar o mais amplo grupo de eleitores brasileiros. Mais uma vez, o maior peso para conduzir o futuro político do Brasil estará nas mãos dos mais jovens.
No entanto, vivemos um período sui generis no Brasil, em que os nossos jovens não se interessam muito pela política, diferentemente do que ocorreu no auge do movimento estudantil, no combate à ditadura, na luta pela redemocratização, na manifestação dos cara-pintadas...
Há um preocupante comodismo, decorrente do modo de vida individualista e interesseiro da atualidade, com ampla atenção voltada a jogos eletrônicos, desejo consumista desenfreado, relacionamentos virtuais, falta de compromisso emocional (manifestado no ficar), aumento do uso de entorpecentes/alucinógenos, vasta oferta de produtos de entretenimento, dentre outros fatores que criam necessidades fictícias individuais e materiais, em detrimento do interesse pelo bem comum e pelo bem-estar moral.
Diante disso, cabe aos que já foram tocados pela luz do esclarecimento, conduzir o processo de transformação, pois, muito se pedirá àquele que muito recebeu. Em especial, fazemos um apelo para a iniciativa dos grupos de jovens espíritas, principalmente os que encontram dificuldades de agregação. Na atualidade, a juventude não tolera somente os estudos teóricos e apáticos, sem dinâmicas ou associações com atividades que contribuam para o bem da coletividade.
Sugiro, então, que as mocidades espíritas desenvolvam um projeto de conscientização dos jovens eleitores e busquem a comunidade onde estão inseridos para mostrar a importância da participação política responsável. Podem se identificar como “Caravana do Jovem Cidadão” ou algo parecido e marcar horários nas escolas para palestras e debates. Jovens conversando com jovens sobre as características e desafios da política brasileira e a contribuição de cada um para a melhoria desta realidade. É claro que essa iniciativa não deveria ter cor partidária, mas respeito à pluralidade e o estímulo à convivência sadia e respeitosa.
Em qualquer cartório eleitoral veremos que a maioria dos jovens que se alistam são levados por candidatos ou cabos eleitorais, usados como “massa de manobra”, outros tantos se alistam sem saber se vão votar, completamente desestimulados e outros mais, mesmo com o direito, não têm interesse em se alistar, muitas vezes pela descrença. É compreensível (mesmo que inaceitável) ver tal comportamento em pessoas que já atravessaram muitas amarguras e desilusões em uma existência, mas quando se manifesta em um jovem, espírito eterno que recebe de Deus a oportunidade de renovar seus ideais, atitudes, metas na nova encarnação, é de lamentar.
O jovem espírita tem a importante oportunidade de participar ativamente e de modo amoroso, de um movimento pacífico e organizado em campanha pelo voto responsável. Juventude espírita, o Brasil necessita de sua participação consciente na construção de uma organização social mais justa, democrática e fraterna.


quarta-feira, 17 de março de 2010

PARTICIPAÇÃO POLÍTICA: QUESTÃO DE CARIDADE



ENQUANTO VOCÊ LÊ O TEXTO, SUGIRO QUE CARREGUE O VÍDEO ABAIXO. A MENSAGEM É BELÍSSIMA E NOS CONVIDA AO EXERCÍCIO DA CONVIVÊNCIA RESPONSÁVEL.

De acordo com a questão 866 de O Livro dos Espíritos, a compreensão do sentido da palavra caridade, da forma como nos ensinou Jesus, inclui a benevolência para com todos. Desta maneira, podemos compreender como caridade todas as práticas que se comprometem com o bem-estar coletivo, das quais faz parte a ação política séria e responsável, tanto de eleitores como de detentores de mandatos e lideranças sociais.

Aqueles, portanto, que dizem não se preocupar com política e que apresentam variadas justificativas para isso (chatice do assunto, a incompreensão do sistema, a desilusão em relação ao tema ou qualquer outra desculpa) perdem uma excelente oportunidade de contribuir para o bem comum, ou seja, de agir caridosamente.

Queiramos ou não, as ações políticas interferem bastante na vida de todos nós, em especial na vida da população de menor poder aquisitivo e baixos índices de escolaridade, mais afetadas pelas políticas públicas (ou falta delas). Mesmo com todos os avanços, que foram expressivos nos últimos 20 anos, ainda temos mais de 30 milhões de brasileiros que vivem em condições de miséria, a concentração de renda é uma das maiores do mundo e 10% da população nacional é analfabeta. Se não bastasse isso, ainda temos os desafios urbanos, os elevados índices de violência e desemprego, os problemas no atendimento de saúde, a deficiência da infra-estrutura econômica e a ameaça aos nossos ecossistemas, além de tantos outros obstáculos para uma convivência digna, justa e harmoniosa, como a corrupção que, se não existisse, de acordo com a ONG Transparência Internacional, a renda média do brasileiro aumentaria 6 vezes.

Ser cristão e amar o próximo é desejar para cada um desses milhões de irmãos brasileiros o que queremos para nós mesmos. É abandonar o discurso vazio e vivenciar os ensinos do Cristo. E tudo isso também envolve uma participação política séria, seja como candidato, seja como eleitor.

Em anos como este a nossa responsabilidade se multiplica, pois devemos escolher 6 representantes políticos, fato que só acontece a cada 8 anos: presidente, 2 senadores, deputado federal, governador e deputado estadual. Colaborar positivamente neste processo de eleição é fundamental para que nossa sociedade alcance novos progressos. Caso contrário, poderemos passar muito tempo a lamentar o que ainda falta ser feito.

Mesmo sendo aproximadamente 5% dos brasileiros, nós, espíritas, temos muito a contribuir nesse processo, pois somos o grupo religioso de maior escolaridade do Brasil e que muito pode colaborar, através da educação e conscientização dos demais brasileiros quanto à responsabilidade na escolha dos nossos mandatários.


terça-feira, 9 de março de 2010

Kardec e os temas da política 2: A ESCOLHA DOS GOVERNANTES

No livro Obras Póstumas iremos encontrar o texto em que Kardec aborda o tema das ARISTOCRACIAS, que, em síntese, trata da evolução na forma como os dirigentes políticos dos povos alcançam, mantêm e utilizam o poder.


O codificador considerou que os “chefes” são necessários para conduzir uma sociedade e proteger os seus membros. Relata, então, uma breve síntese de como os dirigentes atuaram ao longo da história e nas diversas sociedades.

Em seu resumo histórico, Kardec lembra dos seguintes “chefes” políticos:

• os patriarcas, chefes familiares que conduziam pela sabedoria;

• os chefes militares, que alcançaram o poder pela força bélica e organização na defesa de seu povo, além das conquistas territoriais em relação aos povos vizinhos;

• os nobres, donos de títulos e bens conquistados pela força ou herdados e que transmitiam tais valores, por sua vez, aos seus sucessores, justificando seus privilégios como determinação divina;

• os “revolucionários”, originados das “classes inferiores” (oprimidas) e que empregaram a inteligência em conquistas sociais para suas classes;

• os endinheirados, decorrentes da habilidade empreendedora, mas que em muitos casos estava desacompanhada da moral;

Diante de tal lista, esclarece o codificador que cada povo e cada contexto histórico têm o aristocrata que merece e que sempre é fruto dos interesses e idéias predominantes na sociedade.

Falta, porém, alcançarmos o governo da liderança que, ao mesmo tempo, é adornada pelas qualidades da inteligência e da moral ilibada. Tal fato ocorrerá no momento em que o bem e a instrução dominarem a sociedade. Atentemos para uma passagem do texto que parece corresponder à nossa realidade atual: “hoje a inteligência domina (...) e vedes o homem do povo chegar aos primeiros cargos (...) seria possível juntar-lhe a moralidade?”. Claro, mas para isso, como acrescenta Kardec, é preciso que a moralidade domine numericamente.

Alerta ainda o insigne professor que não devemos perder a esperança de que isso ocorra. Pelo contrário, devemos nos esforçar para que essa realidade se concretize o mais rápido possível, ainda mais porque temos o Espiritismo, apontado pelo codificador como uma causa que deve apressar o advento do progresso social. Cabe a cada um de nós se esforçar para participar desta conquista. O que estamos esperando?

quarta-feira, 3 de março de 2010

DE BAIXO PARA CIMA


Todo político é ladrão”. “Votar não faz diferença nenhuma, nada muda mesmo”. “O Brasil não vai pra frente nunca, com tanta corrupção dos políticos”. Frases como essas representam um pouco das manifestações de desânimo e descrença quanto ao comprometimento de nossos representantes políticos na construção de uma sociedade melhor.


Elas indicam uma imensa ilusão de nossa cultura social: “a do salvador da pátria”, a idéia de que as transformações para uma sociedade melhor serão conduzidas por um chefe político, que fará tudo sozinho, enquanto assistimos de camarote a evolução promovida por um verdadeiro messias salvador do povo.

Essa visão é muito cômoda, pois coloca somente nos outros (representantes políticos) a responsabilidade de melhorar a sociedade em que vivemos, afastando as necessárias atitudes da participação e de controle social nas decisões e destinos de nossa nação.

Além do comodismo, há uma clara aceitação social das práticas inescrupulosas e corruptas “estreladas” pelos nossos representantes políticos e seus aliados. Quem já não ouviu ou disse que “se estivesse no poder também roubaria”, ou ainda que aceita que roubem desde que façam uma boa administração: “rouba, mas faz”. Esse modo de pensar reprime as mudanças, pois viabiliza a corrupção e abre caminho amplo para os mal-intencionados.

Diante disso, fica claro que os representantes políticos espelham a postura dominante na sociedade. Se há muita corrupção é porque aceitamos e/ou participamos da corrupção (principalmente com o jeitinho brasileiro). Quando formos rigorosos com a nossa conduta moral, não iremos admitir representantes que hajam de maneira torpe.

As grandes mudanças morais partem da conscientização individual e da transformação íntima, até alcançar a maioria dos indivíduos. É um processo que parte da educação pessoal, que se combina com a mudança dos demais sujeitos até se tornar uma força transformadora. Assim como a regeneração não acontecerá como um passe de mágica, a melhoria das condições sociais não virá de um messias ou de um automatismo divino.

A mudança irá partir de cada um de nós. Vamos, então, fazer com que estas idéias do amor ao próximo e da responsabilidade perante a lei divina sejam “contaminadas” no nosso meio social. Essa será a força que nos blindará contra a corrupção, os desmandos, os abusos na prática política e que prejudicam tanto a nossa coletividade. Lembremos de Jesus (Mt.6,33): “buscai primeiramente o Reino dos Céus e sua Justiça (a transformação moral) e tudo o mais vos será dado por acréscimo (paz, fraternidade e melhoria das condições sociais).

DO BRASIL PRO MUNDO INTEIRO

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

PARTIDO POLÍTICO ESPÍRITA?

A idéia surgiu no século XIX, como uma tentativa de denegrir a imagem da Doutrina Espírita, apresentada em um relatório ao senado francês. Como tudo que envolvia o Espiritismo, gerou ampla repercussão. O assunto foi tratado nas edições da Revista Espírita de julho e agosto de 1868, quando mais uma vez se viu uma tentativa de macular a Doutrina Espírita contribuir para uma maior aceitação de seus postulados.

Kardec não rejeitou, de todo, a idéia, pois entendeu que a concepção de partido nem sempre está relacionada com luta e divisão, podendo ser entendida como a força de uma opinião que merece ser examinada. O codificador, então, deixou claro que o Espiritismo tem capacidade de emitir “pontos de vista” respeitáveis quanto aos fatos que interferem na vida humana, inclusive na vida pública.

Em diálogo com alguns companheiros espíritas, pude perceber, em algumas ocasiões, uma completa rejeição no relacionamento entre o Espiritismo e os fatos da política, quanto mais a um partido político. De fato, a doutrina consoladora é inconciliável com práticas abusivas, egoístas, interesseiras, tão comuns na vivência política. Mas é justamente por isso que sua influência deve se tornar mais forte, para estimular a solidariedade, a tolerância, a cooperação, o respeito às diferenças, o desejo por justiça e a busca pela paz social, ou seja, para estimular o relacionamento amoroso entre os membros da sociedade.

O escritor cearence Luiz Gonzaga Pinheiro, no livro Espiritismo e Justiça Social, defende a criação de um partido espírita, como uma das muitas formas de os espíritas atuarem intensamente na busca de condições sociais mais dignas para todos os membros da comunidade e como uma maneira de repudiar os abusos da politicalha interesseira.

Concordando ou não com esta proposta, fica claro que o Espiritismo tem amplas possibilidades de influenciar de maneira positiva as instituições sociais, reforçando os ideais cristãos e esclarecendo quanto às conseqüências de nossas ações. Lembremos Kardec (ESE, cap. XI, 4).: “quando os homens as tomarem por normas de sua conduta (o amor e a caridade) e por base de suas instituições(...) farão reinar entre eles a paz e a justiça”.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

KARDEC E OS TEMAS DA POLÍTICA 1: LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE

              O Codificador Allan Kardec, como homem sensato e bastante comprometido com a realidade da sociedade que o cercava, comentou, em várias oportunidades, temas relacionados à política, entendida aqui como o fenômeno social caracterizado pela disputa de interesses (pessoais, institucionais ou de grupos) com vistas a alcançar o poder de organizar e administrar o Estado.
            Abordaremos, neste primeiro comentário sobre as considerações de Kardec, o texto encontrado no livro Obras Póstumas com o lema da Revolução Francesa, que inspira os modernos ideais democráticos.
            Liberdade, igualdade e fraternidade, na visão do nobre Codificador, não são somente palavras, mas ideais que devem ser buscados por todos os indivíduos, em especial os detentores do poder, de modo a possibilitar um convívio social harmônico e justo.
            No entanto, para a sociedade alcançar tal progresso, Kardec identifica os mais perniciosos obstáculos que devem ser superados: o egoísmo e o orgulho. Nas palavras do grande professor: “sendo o egoísmo a praga dominante da sociedade, enquanto ele reinar dominador, o reino da verdadeira fraternidade será impossível”... “para a realização da felicidade social, a fraternidade está em primeira linha”... “tratar alguém como irmão é tratá-lo de igual para igual. Mas qual o inimigo da igualdade? É o orgulho”... “os inimigos da liberdade são, ao mesmo tempo, o egoísmo e o orgulho”.
            O mestre lyonês considerou, ainda, que quando há dominação e injustiça no meio social, há maior possibilidade de conflitos agressivos entre os indivíduos e grupos na busca dos instrumentos do poder, ou para os oprimidos saírem do jugo ou para que as ações dominadoras mudem de mãos.
            Como remédio para tamanho mal, sugere Kardec que cada um de nós trabalhe para “extirpar o vírus do orgulho e do egoísmo”. Somente assim o convívio coletivo possibilitará a consolidação de instituições e condutas que proporcionem o amparo aos fracos, a superação da ignorância, a realização da justiça, a imunização contra os desvios interesseiros e o cumprimento sensato dos deveres de cada um. Essa é a fórmula para a conquista do bem-estar íntimo e público, a paz individual e social.           
           Observemos que Allan Kardec não se opõe contra pessoas nem grupos, mas contra sentimentos individualistas e idéias materialistas, pois não iremos por fim ao mal destruindo os maus, mas colaborando para sua auto-educação na direção do bem.
            Sonho distante? Mas certamente possível. E quanto mais intensamente colaborarmos com a educação e a reforma moral, nossa e dos demais seres humanos, mais rapidamente os  bons resultados serão alcançados. É a felicidade social, portanto, a nossa felicidade, que está jogo.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O “JEITINHO” BRASILEIRO

         A maior “praga” do Brasil é o “jeitinho brasileiro”. Ele infecta todos os aspectos da vida social, abalando as bases de um convívio respeitoso, honesto e justo. É a manifestação e prática da corrupção, de desvios de conduta, de atitudes interesseiras  e sórdidas.
O propagado “jeitinho brasileiro” é um eufemismo para designar as ações que são praticadas em franco desrespeito às leis e à ética, que de algum modo, prejudicam outra(s) pessoa(s) ou o próprio Estado. Assim, busca-se alcançar rapidamente um resultado ou conquistar um benefício.
É manifestação do materialismo imediatista, pois sua ocorrência se dá através de pessoas confiantes de que a justiça não irá punir seus atos e que, portanto, deve aproveitar o momento para alcançar todas as conquistas possíveis, buscando apenas a satisfação pessoal ou de um grupo.
Também é manifestação do egoísmo, pois o praticante não expressa nenhuma preocupação com o semelhante e age com a certeza de que prejudica algo ou alguém. O que importa são, primeiramente, os seus interesses pessoais.
Como um povo pode progredir quando o desrespeito às leis e ao próximo são práticas rotineiras, aceitas socialmente? Dentre as quais podemos citar: furar fila, mania de atrasar nos compromissos, fazer “gato” (furto de energia), adquirir deliberadamente produtos falsificados (pirateados),  estacionar em faixa dupla, oferecer ou receber propinas... A lista é gigante.
É claro que não somo santos, nem anjos ainda, mas a Doutrina Espírita nos faz entender que a Lei de Causa e Efeito não deixará impune nenhum ato (questão 964 do Livro dos Espíritos), mesmo que a justiça humana não alcance, mesmo que aceito socialmente, pois toda conduta que prejudica alguém gera desequilíbrio no Universo, fazendo surgir a necessidade de reparação, nesta ou em outra existência. E o que parecia ser uma vantagem, conquistada pela “malandragem”, torna-se um fardo para o praticante carregar até corrigir o que fez de errado.
           Portanto, o melhor é tentarmos fazer tudo da forma correta e percebermos que os pequenos atos de desvios de conduta também dão margem e legitimam os grandes atos de corrupção praticados pelos ocupantes de cargos públicos. Se nós fizermos a nossa parte de modo ético e legal, certamente os grandes corruptos encontrarão menos oportunidades de “explorar a viúva”, “meter a mão no alheio”, “agir por baixo do pano”, “cometer maracutáias”, “ajeitar os amigos”, “fazer o povo de besta”, “mama o leite da vaca”, ou seja, de darem um jeitinho brasileiro.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

REVOLUÇÃO VERSUS EVOLUÇÃO

           É comum nos indignarmos com a nossa realidade política, ao ponto de propormos medidas drásticas como um golpe de Estado ou o retorno da ditadura dos militares como soluções possíveis para o problema.
            Porém, a história humana é pródiga de fatos que demonstram que transformações repentinas nas organizações estatais e nas estruturas de poder, as chamadas “revoluções”, não promovem a melhoria repentina de uma sociedade, pois normalmente são realizadas mediante o uso da violência e da manipulação de dados que camuflam os resultados obtidos. Nem as tão alardeadas “revoluções” gloriosa e francesa, não trouxeram mudanças bruscas. Esta última, com os ideais de igualdade, fraternidade e liberdade que inspiram as democracias de todo o mundo, ainda foi seguida por uma ditadura pouco tempo depois. Mais recentemente, as “revoluções” nos países socialistas, mesmo trazendo, em alguns casos, melhorias dos indicadores sociais, suprimiram a liberdade de expressão e conduta.
            Estas recordações nos servem de exemplo, pois se queremos um país melhor e mais justo, vamos fazer a reforma gradual e constante de nossas condutas individuais e, por conseqüência, de nossa vivência coletiva, viabilizando a evolução social.
            A Doutrina Espírita nos orienta que a evolução não dá saltos (Lei do Progresso) e que é fruto de nossas decisões e ações renovadas, a partir do conhecimento de nossa natureza espiritual e essência divina: fomos feitos para o amor, a justiça, a sabedoria e a paz.
            Vamos fazer a nossa parte por um mundo e um país melhores, mudando a nossa conduta egoísta e interesseira e, com a Doutrina Espírita, contribuir para clarear mentes, ampliar percepções, abrir os olhos de nossos semelhantes através do exemplo e da educação. Por que esperar para depois? 2010 é ano de eleições, ótima oportunidade para colaborar mais intensamente neste processo. Ou será que nós também somos do tipo que “não está nem aí” ou que quer, apenas, “se dar bem”?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O porquê desta proposta


 
Estamos em ano eleitoral e mais uma vez, pelo menos dois caminhos se abrem aos cidadãos brasileiros: aceitar, de maneira conformada, omissa e até, conivente o nosso sistema político corrupto, injusto e interesseiro, ou contribuir para reformá-lo, com vistas ao bem coletivo e visando uma sociedade mais fraterna.
Aquele que foi tocado pelo Evangelho e esclarecido com a luz da Doutrina Espírita deve atuar ativamente e efetivamente para a construção de um mundo melhor. Deve, por impositivo da consciência renovada, dar a sua parcela de contribuição para a construção do Reino de Deus entre os homens da Terra, em todos os segmentos da vida, inclusive na condição de cidadão político, que, com suas ações, palavras e idéias pode interferir ativamente para a implantação de uma sociedade solidária e harmoniosa.
Espíritas, não nos acomodemos  diante da possibilidade de renovação social. A obra espírita é essencialmente educadora/reformadora. Omissão é desamor, desinteresse pelas dores do próximo. Descrença é incompreensão da nossa origem divina, que nos criou para a angelitude. Conivência é derrota vergonhosa para as concepções imediatistas e materialistas, representadas pela postura do “se dar bem”, idéia egoísta geradora de tantos sofrimentos.
Vamos unir os nossos esforços nesse debate e, especialmente, na tarefa educativa de despertar consciências para a responsabilidade coletiva na construção de um mundo melhor, rumo a um convívio mais respeitoso e fraterno, ostentando o estandarte cristão de “fazer aos outros o que queremos para nós mesmos”.
Pretendemos, aqui, fazer reflexões semanais, esperando a contribuição de todos os que estiverem interessados na reforma, gradual e persistente, de nossa sociedade rumo à fraternidade. Espero comentários, idéias e todo tipo de colaboração para que este trabalho se torne coletivo e alcance bons resultados. 

Obrigado e um grande abraço.